A visão nos primeiros anos de vida – cuidados que fazem a diferença

A velha expressão diz: “é preciso ver o mundo com os olhos de uma criança” – Henri Matisse (desenhista, escultor e pintor francês). Naturalmente, o artista falava sobre encantamento; ver as coisas como se pela primeira vez, sem preconceitos, sem restrições. As crianças têm naturalmente essa capacidade que a vida adulta tende a nublar.

Claro que essa expressão é uma forma simbólica de representar a inocência e a pureza do olhar infantil e reconhecer a beleza que isso tudo significa. Porém, se considerarmos que a visão de uma criança é um dos sentidos mais importantes para ela conhecer e se reconhecer no mundo, aprender e interagir, a expressão ajuda também a percebermos o quanto o “olhar”, ou seja, a capacidade de ver os detalhes, as cores, as formas de tudo a sua volta, precisa de atenção e cuidados para que seja preservado da melhor forma possível.

Hoje, mais de 20% das crianças em idade escolar sofrem com algum tipo de problema de visão. Ou seja, uma a cada quatro crianças apresenta miopia, hipermetropia, estrabismo ou outra dificuldade visual. Dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia mostram que 12% das crianças em idade escolar e pré-escolar precisam de óculos. Essa realidade pode ser consequência do grande esforço intelectual que as crianças vivem desde o nascimento. A televisão, o computador e o vídeo game estão também entre as principais causas dessa realidade. Estes aparelhos exigem muito do sistema visual da criança, chegando a impedir, em alguns casos, seu adequado desenvolvimento.

Muitos pais, e até mesmo professores, têm dificuldade para perceber que os pequenos apresentam alguma dificuldade para enxergar, e este problema se reflete no aprendizado em sala de aula. Segundo oftalmologistas, 57% das crianças com problemas visuais são desatentas e agitadas. Daí a importância de reconhecer os sintomas o mais cedo possível e levar a criança ao médico. Os olhos se desenvolvem até os 7 anos e a falta do uso de óculos quando há a necessidade até essa idade agrava alterações como miopia, astigmatismo e hipermetropia (chamados de vícios de refração), o que pode levar ao estrabismo, devido ao esforço visual, e à perda da visão num dos olhos (ambliopia ou olho preguiçoso), a principal causa de cegueira infantil.

O primeiro exame de vista deve acontecer aos 3 anos de idade, quando há histórico familiar de problemas de visão. Se os pais são míopes ou têm algum outro vício de refração, a criança deve ser levada ao oftalmologista aos 2 anos. Algumas dificuldades visuais também podem ser detectadas logo que o bebê nasce com o teste do olhinho, fazendo uso do oftalmoscópio. Este instrumento incide luz sobre a pupila (a parte escura no centro do olho que muda de tamanho de acordo com a intensidade do feixe luminoso sobre ela) para que se possa observar o reflexo retiniano. Na ausência de reflexo ou em casos de assimetria, o recém nascido deve iniciar um acompanhamento oftalmológico. O teste do olhinho previne e diagnostica doenças como a retinopatia da prematuridade, catarata congênita, glaucoma, retinoblastoma, infecções, traumas de parto e a cegueira. Segundo dados estatísticos, cerca de 3% dos bebês em todo o mundo apresentam algum desses problemas.

Se o seu filho apresenta dor de cabeça ao sair da escola, tem olhos irritados ao fazer suas tarefas escolares ou franze a testa no momento de ler, é possível que ele apresente dificuldade para enxergar. Leia abaixo dicas de como reconhecer alguns dos principais problemas de visão nas crianças:

- as crianças que sofrem de miopia, se caracterizam por não verem corretamente objetos ou pessoas que se encontram distantes. As crianças podem apertar os olhos para focalizar melhor. Aquelas que não usam óculos, normalmente, são mais tímidas e distraídas, e preferem atividades como a leitura, pintura ou trabalhos manuais. Os sintomas podem ser confundidos com transtornos da escrita, como é o caso da dislexia, já que muitas crianças, por não conseguirem ter uma boa definição visual, podem trocar, ao copiar de uma lousa, letras como o p pelo q, ou a letra d pelo b;

- a hipermetropia é justamente o contrário da miopia. Os afetados pela hipermetropia têm uma percepção borrada de objetos próximos. É normal das crianças, ao forçar a vista, apresentarem dor nos olhos ou cabeça, lacrimejarem e piscarem frequentemente. Geralmente, preferem brincar ao ar livre;

- uma criança com astigmatismo tem uma visão deformada das coisas, tanto de longe como de perto. A doença pode estar associada à miopia ou à hipermetropia, apresentando sintomas de ambas as patologias;

- ambliopia ou olho vago, consiste na perda parcial da visão em um ou nos dois olhos. Não pode ser corrigida com lentes. A melhor forma de combatê-la é detectá-la e tratá-la antes dos 7 anos (idade da maturidade visual). Se não for tratada precocemente pode resultar numa grande perda de visão do olho afetado, já que este não se desenvolve adequadamente e, pouco a pouco, deixa de enxergar;

- o estrabismo é uma perda de paralelismo dos olhos, onde cada um deles foca em uma direção diferente. Esse defeito ocular supõe um problema grave do sistema visual que deve ser avaliado imediatamente por um especialista. O tratamento do estrabismo, de modo geral, é feito com o uso de óculos, oclusão (tampão em uma das lentes) e em alguns casos, cirurgia. O ideal é que o tratamento seja feito até os 7 anos de idade. Após esse período, a recuperação da visão torna-se mais difícil.

Outra questão importante no processo de maturidade visual é o estímulo para que esse processo ocorra da melhor forma possível. Pintura, desenho, construção de objetos e montagem de quebra-cabeças são algumas brincadeiras que devem ser estimuladas para ativar o cérebro e exercitar os olhos. O bebê não nasce, por exemplo, com visão tridimensional, mas a desenvolve através do movimento dos olhos, da forma como vê e pega os objetos e da movimentação espacial. As ações que estimulam as áreas cerebrais que avaliam a distância e a profundidade garantem que a criança, no futuro, tenha também maior segurança e facilidade no uso de suas habilidades visuais.

Dicas de como os pais podem identificar possíveis problemas de visão nos filhos

Observe se a criança:

- em vez do reflexo vermelho, que normalmente surge nas fotografias domésticas, ela apresentar uma mancha branca nos olhos;

- não liga pontos sequencialmente de modo claro e rápido;

- fica com a cabeça muito próxima ao livro de histórias;

- só consegue ler se usar o dedo para acompanhar;

- quando lê, tende a tombar a cabeça para um lado;

- não troca sempre de lápis de cor;

- tropeça com freqüência;

- demora a chutar uma bola;

- não gosta de brincar de encaixar peças.

Demonstre que você é um pai ou uma mãe de visão. Na identificação de qualquer um desses padrões de comportamento, leve seu filho imediatamente para consultar um oftalmologista.